quinta-feira, 16 de julho de 2009

Sobre os finais

Procura desesperadamente em seus escritos, nos resquícios da vida moderna on line, algo que corresponda aos instantes que passaram juntos. Breves e intensos, em sua fase mais conturbada de fixação da nova personalidade, tenta manter a frieza que a maturidade pede.

Nos encontros, somente frases e letras soltas, que não comunicam. O silêncio a incomoda. Bons conflitos rendem, e rende-se. Sabe que amores, amigos, lembranças e silhuetas tomam o novo mundo do moço bom de olhar... Perderia horas só observando.

Vai ao encontro do homem responsável pelo despertar das mais adversas sensações e vontades. Que fez ela desviar-se em deslizes contínuos. Ao seu lado não tem receio do deguste compulsivo. No prédio sem porteiro, encontra com um casal saindo, lânguidos, exageradamente apaixonados. Adentra o prédio sem dificuldade, aproveita a deixa da saída. Encontra o apartamento com a porta encostada, dá passos sorrateiros.

Olhos arregalados, sussura:
- Desejo-lhe uma boa vida, com confusões e perturbações, só assim faz sentido.

Terá sempre as imagens e diálogos raros bem guardados, imagina o futuro feliz revendo o passado denso de trepadas, maconha, vinho e silêncios.

Mais baixo que da primeira vez, sua voz quase não sai no murmúrio rouco:
- Não aprecio a falta de ruídos! Silêncio perturbador, escuto as lástimas dos demônios que me habitam.

Sentada sobre o corpo já frio do amante, lembra-se do marido e dos filhos que a esperam para completar a rotina. Jantar, conversas, louças, talvez um sexo sem muita graça, sono, sonhos. Levanta-se abruptamente arremessa o canivete em um canto qualquer do apartamento, limpa-se e deixa o prédio, apressada.

Recém completados 37 anos. Teve o destino programado.
Levemente religiosa, Julia passou por todas as etapas necessárias. Batismo, primeira comunhão, crisma, estudos, faculdade, casamento, filhos, crises.

Imaginava a vida exatamente assim, aos 24 anos, quando saiu da igreja desconfortável dentro do imenso vestido branco de noiva. Sabia dos riscos e perdas, teve bons exemplos com os pais e parentes, mas aceitava o que era correto, e ia em busca de seu final congelado.

18h00, encerra-se o expediente, repete os movimentos rotineiros. Desligar o computador, limpar a mesa, pegar casacos, bolsa e chaves, elevador, estacionamento, carro.
Senta-se, deposita toda a "bagagem" no banco traseiro, fecha a porta e encara as chaves. Chora desesperadamente. Revê a vida sem embasamento, as lágrimas jorram em suas mãos, arranha a face, a cena repete-se e repete-se.
Ainda sem conter as lágrimas e quase sem fôlego, sai do carro, deixando-o escancarado...

Sai apressada do prédio a passos largos, esbarra no segurança do estacionamento e grita histericamente, corre até a calçada batendo nos passantes, aos berros e lágrimas, arranhando agora continuamente, além das faces, o colo, o corpo. Rompe o movimento e inicia uma série com os braços a balançar no alto, como um pastor em seu mais enérgico sermão, sempre aos berros, finalmente encontra nas sombras da loucura, seu final feliz.

Augusto aprecia o silêncio, o que sempre acaba soando como perturbador, raros os que conseguem a naturalidade na ausência de sons, geralmente embarcam em monólogos enquanto ele se perde em pensamentos hostis. Mas hoje não aprecia a solidão.

Acende um cigarro e apanha o casaco que repousa sobre a cadeira, o único assento da casa simples de seu avô. Caminha apressado como se atrasado, dá-se conta de que não tem um destino certo, que caminha para lugar nenhum, reflexões.

Sempre haverá algo a ser seguido, e sempre estará perdido, com o ar de "enquadrado", em meio a multidão falante... Tentando ter relacionamentos e relações, falidos.
Mecanicamente chega até seu prédio, apenas encosta a porta do apartamento, não costuma receber visitas.
Come algo e adormece pesadamente.

5 comentários:

Numseikiten disse...
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Rafael disse...

Bacana, Larissa.
Um texto interessante,despojado, sutilmente sádico: Beatnik. rs
Abraço.

gelsonvox disse...
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Larissa Adamowski disse...
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Anônimo disse...

Gostei muito do texto, moderno com descritivas simples, curtas mas muito densas, inquietantes. Visual! Mais uma Crise entre as crises, tive algumas. As vezes parece que vem no pacote também.
Eu tiraria os comentários da exposição do blog, são muito frios, parece que tão falando de uma receita de bolo, e acabou me levando a formular a minha opnião e a minha opnião da opnião sobre teus textos... abraço lare!

Gui Adct.